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O poder econômico do mercado afro-brasileiro

Paulo Rogerio Nunes, co-fundador da Vale do Dendê e da AFAR Ventures, fala sobre a inclusão dos afrodescendentes na economia

Amanda Schnaider
29 de outubro de 2020 - 20h46

O conceito de Black Money, ou seja, reafirmação do poder econômico da comunidade afro, não é algo recente, porém, sua repercussão no Brasil tem sido muito forte nos últimos cinco anos. Na Trilha Comportamento, Paulo Rogerio Nunes, co-fundador da Vale do Dendê e da AFAR Ventures, avalia o poderio econômico das pessoas negras e mostra qual é a importância de as grandes companhias financeiras olharem para esse poderio.

 

Paulo Rogerio Nunes, co-fundador da Vale do Dendê e da AFAR Ventures fala sobre a inclusão dos afrodescendentes na economia (crédito: Eduardo Lopes)

“Temos realmente um sistema econômico no Brasil extremamente concentrado, que é avesso a inclusão. É como se fosse um avião tentando decolar apenas com uma asa”, afirma Nunes, revelando que, se o Brasil tivesse uma inclusão maior dos afrodescentes e das pessoas marginalizadas, seria uma potência como China e Estados Unidos.

Dentro do debate sobre as consequências da escravização brasileira na forma como os negros continuam sendo marginalizados, o executivo comenta que o discurso de muitas pessoas é de que não devemos pagar por erros passados. Porém, Nunes avalia que a questão não é quem deve pagar ou não, e sim qual é o passivo econômico que a comunidade afro-brasileira recebeu nos últimos 130 anos, desde o fim da escravidão. “Esse capital econômico acumulado, que foi transformado e hoje está no mercado imobiliário e nos fundos de investimentos, não desaparece, se recicla”, reforça.

Ainda, pelo lado do capital social, Nunes aponta que os brancos têm, sim, privilégios econômicos em relação aos negros. “Esses privilégios acumulados fazem com que haja uma vantagem competitiva. Ser branco é uma vantagem competitiva”, diz. Apesar do movimento negro estar muito envolvido na questão política, ultimamente tem se voltado fortemente para a questão econômica. “Não dá para transformar esse País sem falar na economia. No final das contas, tudo é economia, tudo são números, tudo tem a ver com dinheiro e esse dinheiro, infelizmente, não está na mão das pessoas que foram passivas e com descendentes de escravizados no País”, pondera Nunes.

Ações concretas
Mas, o que as organizações financeiras estão fazendo para incluir essas pessoas que têm grande poderio econômico? Segundo o co-fundador da Vale do Dendê e da AFAR Ventures, no Brasil, não têm feito muito, porém, há casos internacionais que vão no sentido contrário , como o Citibank, citado por ele, que investiu mais de US$ 1 bilhão no mundo da inovação e do setor financeiro de empréstimo para os afro-americanos.

De acordo com Nunes, as grandes corporações e fundos de investimentos que estão olhando para esse tema perceberam que é preciso ter métricas, um objetivo concreto. “O marketing tem que ser embasado por uma mudança sistêmica. Então, pensar em inclusão e diversidade 360 é fundamental”, afirma, indicando que, no Brasil, as empresas precisam passar só das conversas e hashtags para os investimentos e contratos.

Já é certo que diversidade é bom para os negócios e muitas pesquisas comprovam isso, aponta Nunes. Mas é preciso sair do discurso para a ação. “No Brasil, nos acostumamos com a lógica do “clube do bolinha”, onde se faz negócios quase sempre com quem você estudou na faculdade, do seu ciclo social. Isso é uma visão antiga, retrógrada. A visão do marketing e da inovação moderna é ter pessoas diversas”, completa.

Caso Nubank
O executivo avalia o caso do Nubank. Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Cristina Junqueira, co-fundadora, falou sobre a dificuldade de contratar negros para cargos de liderança na fintech. “Esse caso foi sintomático e mostra que o mercado brasileiro está muito aquém do que se espera em relação a essa discussão. Não somente o Nubank, mas todas as grandes startups brasileiras são agentes desse processo de negação do tema diversidade, especialmente em relação à questão afro-brasileira”, opina Nunes. Entretanto, olhando esse fato, há várias reflexões coletivas a serem feitas. A primeira é que essas empresas devem correr, porque “se vendem como inovadoras, disruptivas, mas não entenderam o que é inovação completa. A inovação sem diversidade não é realmente uma inovação porque não tem olhares diferentes”. Uma nova onda de fundadores de startups negras está chegando e os investidores devem rever seus conceitos e a quem estão dão seu dinheiro. Uma terceira reflexão é que vai ser preciso muito mais do que um pedido de desculpas quando erros acontecem. “É hora de agir, é hora de todas as startups brasileiras, corporações brasileiras e multinacionais fazerem algo efetivo”, completa.

O executivo deixa uma pergunta no ar: “O Brasil, um país que tem mais de 50% da população afrodescendentes, que foi o último nas América a abolir a escravidão e que, mesmo depois da escravidão, em vez de optar por incluir essa população na economia, resolveu importar europeus para substituir a mão de obra dos ex-escravizados para embranquecer o país. Qual é o passivo que esse país tem?”

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