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Evento ProXXIma

17 E 18 DE NOVEMBRO - WTC SÃO PAULO - SÃO PAULO/SP

O que a arte pode ensinar à comunicação

Consultora de estratégias sul-coreana Hui Jin Park traça paralelos entre a arte contemporânea e o mundo corporativo

Roseani Rocha
26 de outubro de 2020 - 21h10

Hui Jin Park com a obra “Isso é quanto eu valho”, da britânica Rachel Ara, ao fundo (Crédito: Eduardo Lopes)

Em português perfeito, a consultora de estratégias sul-coreana Hui Jin Park inaugurou as palestras da Trilha Comportamento nesta edição do ProXXIma, fazendo analogias entre o trabalho de seis artistas plásticas e o universo corporativo. Hui, que já teve passagens por WMcCann e Talent, é formada em comunicação social, começou a carreira em planejamento nas agências e, atualmente, trabalha dando consultoria em estratégia de marca, negócios e cultura organizacional. “Tenho um certo vício em um modelo mental de raciocinar logicamente, que recorre à arte contemporânea como fonte, recurso e linguagem para ampliar e expandir a minha percepção de mundo e consolidar aprendizados”, disse Hui em sua palestra. Apresentando, na sequência, cada artista e seus argumentos para escolha:

Yee Sookyung – Uma das ceramistas mais conhecidas hoje no mundo, a também sul-coreana Yee Sookyung é destacada por Hui, porque utiliza partes rejeitadas no trabalho de outros artistas para compor seu trabalho. Depois que os ceramistas fazem as etapas de manusear e tornear as peças e elas vão ao forno,  o controle deixa de estar na mão humana. Em geral, 70% das peças acabam sendo descartadas, porque não atendem a um padrão considerado excelente, já que algumas quebram ou racham, na queima. Assim, a crença é de que peças quebradas na queima não têm residual enérgico ou merecem existir. Contrariando isso, Sookyung visita estúdios de diversos ceramistas, remonta os cacos, utilizando ouro 24 k  na composição de novas obras, trabalhos mais interessantes do que seriam essas peças se o processo de queima tivesse sido bem-sucedido. O ensinamento, neste caso, é enxergar nos cacos soluções inesperadas e surpreendentes. Trazer essa sensibilidade para o mercado, que carece de narrativas imprevisíveis, não óbvias, não lineares, onde a maioria segue construindo uma “jornada do herói” num storytelling muito óbvio. A orientação às marcas é serem menos performáticas e mais autênticas. “Onde estão os 70%?”, instigou Hiu.

Ligia Clark – Grande artista brasileira e da história da arte mundial, nascida em 1920, em Belo Horizonte, tendo morado depois no Rio de Janeiro e em Paris, onde lecionou na Sorbonne. Levou a arte para comunidades de surdos, cegos, sempre tendo um esforço vanguardista em romper limites e definições. Hiu apresentou uma das obras da série “Os bichos”, exibida na década de 1970 na 6ª Bienal de São Paulo. A escolha foi por ser um objeto que se realiza na interação com as pessoas. Uma peça de arte que acontece no ato de se desdobrar, se transformar sem perder sua propriedade original. “Essa obra me remete ao grande desafio, à grande covardia, falta de coragem que muitas das marcas, profissionais, empresas e nós como sociedade, temos de sair do lugar de segurança ilusória que ocupamos”, disse a consultora. Para ela, não nos permitimos ganhar outras formas ou existe medo de adotar formatos e expressões diferentes, o que, segundo ela, em muitos casos tem a ver em não conhecer o core business e o essencial do próprio negócio ou marca. “Ligia Clark, em 1960 era mais ousada e transgressora que nós em 2020”, disse.

Janine Antony – Nascida nas Bahamas e radicada nos Estados Unidos, posteriormente,  Janine volta às Bahamas, e queria criar a sensação de andar sobre a linha do horizonte, inspirada pela vista do mar que tinha pela janela de sua casa. Estica uma corda, como se ela estivesse sobre a linha do horizonte, mas não tinha habilidades circenses para tal. Em seu processo criativo da obra, contou que treinou por semanas em seu estúdio em Nova York e, nas primeiras semanas, sentiu muita frustração, porque não se equilibrava, caía. Afirmou que a coisa começou a funcionar apenas quando teve um destravamento emocional, saiu do lugar de tentar andar com muito equilíbrio e fez o contrário: estar mais confortável mesmo na instabilidade. Hiu contou ter apresentado a obra num evento para executivos de tecnologia e viu um deles começar a chorar. “Certamente, ele devia estar passando por muita tensão”, pontuou a consultora, explicando a importância de ir adiante, mesmo na instabilidade e quando cenários não estão claros, com um passo de cada vez.

Maria Nepomuceno – Jovem artista carioca, pinçada por Hiu pelo caráter humano de obras como “Organismos”. Isso porque a consultora lembra que empresas e marcas precisam ter capacidade de enxergar para além do resultado financeiro, do enriquecimento dos acionistas, mas pensar também sobre a contribuição daquele negócio na sua cadeia de valores, que tipo de resultado com a sociedade compartilha. Organismos, disse, lembra tanto sistemas micro quanto macro, parecem órgãos do corpo e são interessantes como matéria organizada no espaço. E Hiu foi além: lembrou que nas refeições coreanas, todos compartilham um prato principal e em qualquer situação mesmo num “open bar, open kitchen”, se uma pessoa for minimamente civilizada vai entender que aquele alimento deve servir a todos no grupo. Daí, lembrou que se numa reunião alguém fala demais, tira oportunidade dos outros; se um homem branco ocidental ocupa um lugar de privilégio, é mais importante ainda que tenha uma postura generosa, elegante e respeitosa, e abra espaços para outras pessoas que não tiveram seu momento de fala. Com isso, exaltou a autogestão.

Maria Laet – Outra jovem artista carioca, que segundo Hiu traz muito um sensorial tátil em suas obras, que trabalham com linhas e gases e têm “uma sensibilidade silenciosa, mas profunda”. Mais do que nunca neste momento de pandemia, em que existe muito reach e pouco touch, e não se consegue comover ou mobilizar pessoas por outros encontros o assunto merece reflexão. Hiu escolheu o vídeo “Notas sobre o limite do mar”, em que a artista, conforme cada onda vem, desenha o contorno do limite da onda e começa a marcá-lo com uma linha; antes que consiga terminar, a próxima onda já desconstrói a sua costura, que já não faz mais sentido. Hiu associa a obra às “ondas e modismos frívolos” do mercado, sempre em busca de alguém que traga todas as respostas, um salvador – que pode ser dados, consultoria etc. – sem perceber movimentos mais profundos por trás delas. “O que, em cada onda conseguimos entender sobre fluxo das águas, sobre os eixos mais profundos que estão girando?”, questionou. Assim, a publicidade, enquanto skill que conhecíamos, não tem mais tanta relevância no mundo agora e as lições de casa dos CEOs e outros líderes, estão mais relacionadas à capacidade de remodelar seus negócios, digital transformation, disse implica em business transformation.

Rachel Ara – A artista britânica utiliza neons e recursos de programação, computação e algoritmos em suas obras. Uma delas “Isso é quanto eu valho” muda constantemente, dando números diferentes de acordo com os vários vieses no algoritmo. Quando alguém entra na galeria, em tempo real, os números se mexem e revaloram seu preço. Se a pessoa que fotografou e colocou a hashtag tem certa idade ou posição social, sobe um pouco. Câmeras também valorando imagens das pessoas que entram no espaço. “Essa obra nos lembra um senso crítico, que carregamos muito pouco, num lugar de extremo poder como a indústria da comunicação. Precisamos ter essa voz e senso crítico gritando o tempo todo”, alertou Hiu. Também contou já ter tido colegas muito talentosos e criativos, mas cujo ego na mesma proporção que era importante para criar e convencer, persuadir com algo intangível, podia sufocá-los, quando não havia uma boa gestão. “Ter ganhos prêmios, x, y , z é apenas uma das medidas. Quais os outros dados e métricas? Fico preocupada com a qualidade humana por trás do processamento e uso desses dados. É preciso um uso cada vez mais ético”, defendeu.

A consultora disse ter amigos na Coreia, que fazem piada do fato de ela estar no Brasil, durante a pandemia. E ela responde que enquanto lá morre apenas uma pessoa por coronavirus outras 500 cometem suicídio diariamente, mas isso, claro, não faz parte do boletim matinal do governo. Contou a história para alertar sobre a influência e importância dos filtros onde buscamos informação. “Não são dados que trazem respostas, mas seu uso com sensibilidade humana. Ainda vai levar muito para a IA conseguir alcançar isso”, concluiu.

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